Este é post foi-nos enviado por um dos nossos leitores que fez (e bem) uma sugestão no nosso adorado SLOG. Sim, porque este espaço também é teu e é de todos nós, fica aqui expressa a opinião de um dos nossos leitores, que olhou à volta na “sua” terra e não viu nada do que gostou…
A decisão de deixar os arredores da capital e a terra que me viu crescer, Caneças, de deixar para trás os amigos de uma trintena de anos e as vivências e ambiências de uma vida, e regressar à terra que me viu nascer, não foi fácil, mas brotava em mim uma vontade enorme de revivescer os parcos tempos de uma infância difícil mas feliz, do reviver a Grândola desses outros tempos da amizade, da fraternidade, da solidariedade que recordava com enorme nostalgia.
Que grande desilusão, esta não é a minha Grândola, é um outro sítio, é uma terra de desconhecidos, onde a humildade deu lugar à vaidade, a amizade ao desafecto, a fraternidade à discórdia, a solidariedade à vassalagem, a vila familiar e acolhedora virou um burgo de exclusividade e de indiferença.
E, se de afecção esta é a minha razão, que dizer do corpóreo municipal, com uma arquitectura urbanística de uma pérfida disposição, do pior que já observei, com arruamentos mal construídos, mal tratados e emporcalhados. Numa vila quase toda construída em esquadria, que dizer do tráfego automóvel e pedonal, completamente caótico, sem rei nem roque, sem um esquema de trânsito e de estacionamento automóvel minimamente aceitável. E o jardim 1º de Maio, um dos, senão o único, ex libris de Grândola, quem o viu e quem o vê, maltratado, mal iluminado, menosprezado. E a vida da urbe nos mais diversos aspectos, o da cultura inexistente, do desporto incipiente, dos tempos livres sem lugares, do comércio moribundo, dos serviços decadentes, da indústria inexistente. E os nossos jovens, obrigados a imigrar para outras paragens, por força do emprego que não há.
Grândola vive uma ruralidade bacoca, em antagonismo com o tempo e com o desenvolvimento do mundo. Numa época em que a ruralidade e a urbanidade se cruzam, Grândola continua na sua via aldeã, em que o passado é padrão e o futuro uma quimera.
Grândola, ao contrário do que dizem os “iluminados e argutos políticos desta praça”, é uma terra parada no tempo, sem mobilidade, inactiva, incapaz de criar vida. Só com um efectivo plano de desenvolvimento, nos mais diversos níveis e sectores de actividade, que inclua a participação, a envolvência e intervenção activa dos cidadãos na vida política e social, se conseguirá sair da estagnação a que se chegou.Vítor Santos
Não vou deixar aqui de expressar a minha opinião
(o slog é meu… faço o que eu quiser!
)
De facto, é de louvar que passado uma trintena de anos, o Vítor ainda se incomode com a Vila que o viu nascer. Verdade seja dita que os trinta anos que distam da infância feliz à idade madura que neste momento o Vítor tem, muita coisa mudou (ou deve ter mudado, que eu há 30 anos, não estava cá!) na nossa vila. E mal era que, passados estes 30 anos, o Vítor encontrasse esta nossa/sua terra na mesma! Efeitos do tempo que não voltam a trás, também as pessoas mudam, as vivências mudam e a sociedade adapta-se. E a sociedade mudou mesmo e os 30 anos tornaram o Vítor irreconhecível aos olhos daqueles que agora o julgam.
“É uma terra de desconhecidos…”
… porque o Vítor não reconhece as faces que tentaram levar esta vila aos patamares ilusórios que o 25 de Abril (e porque não falar dele!?) criou com o significado da palavra Grândola. O que aconteceu nesses tempos, foi o “engrandecimento” de um terra que, para além duma música, não tinha nada! E todos viveram com o rei na barriga! Que Grândola era o sinal da liberdade! Que Grândola era o sinal da fraternidade! Mas que no fundo, as pessoas encontravam-se estagnadas e empuleiradas por algo que não tinham! As pessoas de agora, que compõem esta nossa terra, são as mesmas de há 30 anos! As mesmas com que o Vítor cresceu e as mesmas que o viu nascer! A mentalidade mudou nesse dia, há 30 anos… No dia em que o Vítor abalou em busca de uma vida melhor!
Na sociedade
Decerto que não procurou dinamizar a sua vila durante estes longos 30 anos (procura dum emprego, desenvolvimento dum negócio, p.ex.) em que todos nós esperámos pelo seu espírito empreendedor! Decerto que esqueceu a terra que o viu nascer, quando a vida lhe sorria em Caneças. Porque hoje o Vítor é rico em experiências de vida e sente-se incompleto e vê em Grândola um excelente sítio para assentar a reforma, para ter uma casa de férias, mas não para viver durante 30 anos a fio.
Nas infraestruturas
Mas não. Grândola tem “arruamentos mal construídos, mal tratados e emporcalhados”, que por sinal, continuam a ser as mesmas estradas, arruamentos e passeios que a geração do Vítor cá deixou há 30 anos, porque, repito, quem teve a oportunidade, lá foi fazer a sua vida para os arredores da capital! E o Vítor queixa-se, e com razão, de não conseguir estacionar o seu automóvel na zona histórica da vila (que deveria ser apenas para passagem pedonal!), porque quer deixar o carro muito próximo da sua pastelaria favorita, ou porque se recusa a andar 100 metros para comprar o jornal!
No comércio
O Vítor refere o Jardim 1º de Maio como o ex libris da sua terra (de facto, mal iluminado e com pouca dinâmica), mas eu não esqueço (embora também com memórias remotas) da azáfama que era o Mercado todos os dias pelas 8h da manhã! Que se recorda o Vítor do mercado? Qual o interesse que a população tem visto no mercado – que é uma zona cada vez mais morta da sua vila – quando tem um hipermercado com estacionamento à porta? Toda a vila comprava no mercado. A economia desta vila era movimentada no mercado e em toda e qualquer lojinha existente no centro histórico, que hoje não movimenta nada!
Na cultura
A verdade, Vítor, é que não estamos na Grande Cidade! Infelizmente não temos a cultura que desejamos. Não temos os concertos de Jazz, um teatro ou um cinema 7 dias por semana, por ineficácia dos (tais) jovens de há 30 anos, que hoje deliberam à frente da Autarquia. Não temos um SAP ou um hospital decente, porque os jovens de há 30 anos, que hoje deliberam, estão servidos de Seguros de Saúde e em menos de uma hora estão num Hospital com todas as condições. E os nossos velhos? E os seus pais que vivem de uma reforma miserável e têm de se vergar aos seus filhos, nas horas de aflição, sem condições para adquirir os mais de 200€ de medicamentos que precisam, para manter os olhos abertos e ver o que os seus filhos destruíram? Porque os velhos eram os agricultores. Que vendiam no mercado. Que hoje não têm nada!
Na indústria e no desporto
E a indústria que falava, que também já morreu, atacada com caruncho! Trocada por um jipe e uns terrenos na outra ponta do concelho (Troia, por ex.). Pagos para não semear. Porque chove e não há valas. Porque faz sol e o pasto não lavrado queima!
Mas por favor Vítor, não fale do desporto! Que temos dois pavilhões, campos de ténis, futebol relvado (grátis), piscinas, alamedas para correr e não temos mais, porque simplesmente, não se justifica! Porque ninguém quer praticar desporto! Porque o futebol é visto como um negócio onde só poucos lucram, o hóquei teve de se independentizar do próprio Grandolense, que lhes sugava as receitas em busca de resultados que não vanglorizam a terra, o basquet e a natação são desenvolvidos apenas em escalões inferiores.
O Sebastianismo
É verdade, Vítor. “Só com um efectivo plano de desenvolvimento, nos mais diversos níveis e sectores de actividade, que inclua a participação, a envolvência e intervenção activa dos cidadãos na vida política e social, se conseguirá sair da estagnação a que se chegou.” Onde esteve durante os miseráveis 30 anos que precisámos de si!? Que herança é esta, que a sua geração deixou aos seus filhos? Quem são estes estranhos, no poder local, que querem protagonismo a nível nacional, sem nada de que se orgulhar?
É muito fácil criticar quando estamos de fora… Mas quando a (in)acção é nossa… Descartamo-nos com facilidade. “Eu estava em Caneças, era impossível saber isto!” poderia muito bem defender-se! Os nossos problemas são por demais evidentes. Tão evidentes que há distância de 30 anos e mais de 100 km de distância, o Vítor tem facilidade em enumerá-los um por um. Quase que num discurso poético e eleitoralista… Nós não queremos mais problemas. Queremos é soluções. Que passam por si, por mim e por toda a população activa que ainda faz mexer as engrenagens desta terra…
Ainda vamos a tempo, Vítor! Temos mais 30 anos pela frente para mudar o que achamos que está mal! E ainda bem que voltou! E nós vamos ajudar a desenvolver a nossa terra!
Como digo muitas das vezes, “o 24 de Abril era o abismo, o 25 de Abril foi excelente e no dia 26 estávamos na merda outra vez!”.
E a diferença entre você e eu:











Rmgcg comentou:
24 de Abril, 2010 às 5:05
Este Post fez-me comentar pela primeira vez… O meu aplauso à resposta! Excelente, melhor nao podia ser!!!
Rita S* comentou:
24 de Abril, 2010 às 16:40
Socorro!! o slog ta a ser atacado pelos “Velhos do Restelo”!!!
mas compreendo que quem vive na linda e evoluida vila de Caneças ( pra quem não conhece é uma espécie de supermercado de droga, com o maior bairro clandestino da europa mesmo às portas) se choque com a falta de desenvolvimento da terrinha…
Vítor Santos comentou:
25 de Abril, 2010 às 0:42
A minha intenção ao escrever o artigo em questão, não foi o da crítica destrutiva, mas outro sim, o despertar das consciências críticas. Mas não há consciência crítica sem o conhecimento, e este advêm não só do saber académico e da cultura, mas também das experiências de vida e do contacto com outras gentes e povos. Depois não prentendo com o redigido criticar o que foi feito, mas sim apurar o que fazer. E muito há que fazer. O progresso e o desenvolvimento dos povos nasce da insatisfação do que temos. É preciso querer mais e melhor. Na vida, tal como na política e na moral, é um grande mal não fazer bem, e todo o cidadão inútil, sem consciência crítica e não participativo, deve ser considerado um homem nocivo. O meu artigo não é um desfile de vaidades, mas sim a procura de proveitos que esta intervenção possa trazer. Ninguém de perfeita consciência pode negar a frouxidão que habita a vila.
orange_panther comentou:
25 de Abril, 2010 às 15:23
Vítor Santos,
Concordo, subscrevo.
Continue a enviar-nos os seus “despertar de consciências”, que nós continuaremos a publicá-los.
Um abraço
Vítor Santos comentou:
25 de Abril, 2010 às 23:09
Ainda sobre o meu artigo e em relação aos comentários feitos, permito-me acrescentar mais umas coisas. quando saí de Grândola em 1964, saí porque fui estudar para Lisboa, para estudos liceais que não haviam em Grândola. Saí como muitos outros grandolenses saíram e continuam a sair, na procura de outras condições de vida. Ainda hoje os nossos jovens, apesar de terem condições de estudar até ao 12º ano, tem que sair da terra á procura de melhores condições de vida. À procura de trabalho que aqui não há. Caneças não é a minha terra, vivi lá até 1994, tenho lá amigos, como é natural depois de uma vivência de 35 anos, cresci lá. A minha terra é Grândola e é com esta que me preocupo, e se em Caneças funciona um supermercado de droga, em Grândola funcionam algumas mercearias. A minha preocupação é geral, não me inquieta demasiado esta ou aquela situação particular. Penso que Grândola tem condições naturais para um desenvolvimento diferente, para melhor, muito melhor do que aconteceu até aqui, cabe a nós, os da minha geração e os mais jovens, tomarem em mãos essa tarefa. Grândola e as suas gentes merecem mais. A política naquilo que tem de mais nobre, que é o bem estar das populações e o seu desenvolvimento integral, não se faz de festas e de discursos bem intencionados, faz-se de acções. e estas só são possíveis se houverem vontades, disponibilidades e responsabilidades. Da minha parte existe vontade, disponibilidade e, julgando em causa própria, responsabilidade. Penso que a minha experiência de vida e a vivênciade de outras verdades, dá-me um relativo conhecimento das realidades, para poder opinar e acreditar que, com outros, posso e devo fazer melhor.
orange_panther comentou:
25 de Abril, 2010 às 23:57
Caro Vítor,
Também há muita coisa que nos desagrada nesta vila. E também todos nós saímos de cá para nos formar. E no entanto voltámos! Porque é cá que se intervém! Podemos denunciar mil e uma coisa que vivemos dia-a-dia na nossa terra, mas mais do que o “denunciar” está o “agir”. Andámos 20 e tal anos com uma Câmara Comunista, passámos para uma Centro Esquerda há uma dezena de anos e, nestes 30 e tal anos, mantivémo-nos à sombra, sem diferença de maior, seja quem for a Governar. Estou crente que, caso passemos para a Direita, os problemas subsistirão. Porque, lá está, as pessoas são as mesmas, que como disse e bem, “falta um despertar de consciências”. Neste momento temos um Presidente tipicamente eleitoralista que dá aquilo que o povo quer: Bailes, Folclore, disfarça o desaparecimento do SAP com um ou outro fogo de artifício e o povo cala-se! As expressões “Bem haja!” “25 de Abril” ou “Só por cima do meu cadáver!” representam o show-off e a fachada que é este e os outros mandatos que passaram por Grândola pós-revolução. Temos uma Câmara que é o reflexo do país: desinstruida, inoperante e falida. Que é uma herança pesada para quem um dia ambiciona “tomar conta” dos destinos autárquicos.
Portanto, Vítor, envie-nos o seu plano de intervenção na vila de Grândola, com currículo em anexo e tê-lo-emos em conta nas eleições em que nos candidatarmos! Para meter Grândola no lugar que devia estar!